Um casal gravou cerca de nove araras-canindés se alimentando de bocaiúva no asfalto de um condomínio em Cuiabá (MT), comportamento raro em áreas urbanas. O fruto é conhecido popularmente como 'chiclete cuiabano' devido a um costume da década de 1950.
Um casal residente em Cuiabá (MT) teve uma surpresa ao encontrar um grupo de aproximadamente nove araras-canindés reunidas no chão de um condomínio de luxo, se alimentando de bocaiúva. O local é conhecido pela presença da espécie, mas a cena chamou a atenção pela proximidade das aves com os veículos.
Márcia Yamamoto, de 43 anos, e Rodrigo Nichioka, de 45, registraram a cena de dentro de um carro. No vídeo, as araras aparecem espalhadas pela rua, próximas umas das outras, enquanto comem o fruto de uma palmeira. Em determinado momento, algumas aves passam na frente do veículo, e mesmo com a aproximação, continuam se alimentando sem demonstrar medo.
- O apelido 'chiclete cuiabano' surgiu nas décadas de 1950 e 1960, quando a bocaiúva substituía o chiclete importado em cinemas locais.
- A cidade de Cuiabá foi isolada geograficamente por mais de 250 anos, o que dificultava a chegada de produtos de luxo como o chiclete de borracha sintética.
- Araras-canindés são aves sociais e procuram áreas urbanas para dormir, buscando proteção contra predadores que não existem no centro da cidade.
- Embora seja comum vê-las em bandos em fazendas, a permanência no asfalto da capital mato-grossense enquanto se alimentam é considerada fora do normal.
- O agrônomo Paulo Boute explica que, além da comida, as araras precisam de locais seguros para o sono, o que faz com que invadam áreas residenciais.
"Eu pensei: 'Vou passar com calma, vou passar bem devagarzinho', porque mesmo assim eu pensei que ela ia voar. Mas ficou lá, como se tivesse acostumado", contou Rodrigo. A calma das aves surpreendeu o casal, que já estava habituada a vê-las voando ou em árvores, mas nunca comendo no asfalto.
A proximidade foi o principal ponto de estranheza para os moradores. Segundo o casal, em mais de 40 anos de residência na capital mato-grossense, nunca haviam presenciado um grupo tão grande se alimentando no chão. "Foi a primeira vez. Primeira e última, nunca mais. A gente passa lá direto já olhando para ver se elas vão estar lá, mas nunca mais", relatou Márcia.
Comportamento incomum em área urbana
Rodigo, que trabalha há cerca de 20 anos no condomínio, afirma que já tinha visto araras na região, mas nunca com essa quantidade. "Tem palmeiras lá que elas frequentam, mas dessa quantidade nunca tinha visto. A gente chegou, eu passei e falei: 'Nossa, parece que tem um monte de arara naquela rua ali, amor. Vamos voltar'. Aí voltamos e realmente tinha um monte. Elas estavam comendo aquela bocaiúva, aquele chicletinho cuiabano", narrou.
Origem do apelido 'chiclete cuiabano'
A bocaiúva, fruto de uma palmeira comum no Cerrado e no Pantanal, ganhou esse nome curioso que mistura um hábito de consumo local com a história de isolamento de Cuiabá. Antes da popularização do chiclete industrializado, a fruta já era usada como substituto nas sessões de cinema.
Segundo o agrônomo e guia de turismo Paulo Boute, nas décadas de 1950 e 1960, era comum que pessoas levassem sacos de bocaiúva para roer durante os filmes. "Você tem que pôr na boca e você tem que ir roendo. E nessa de roer dá a impressão que você está com um chiclete na boca", explicou.
Após roer a parte amarela e fibrosa, as sementes eram descartadas no chão do cinema. Essa prática ajudou a popularizar o apelido. O nome está ligado ao isolamento histórico de Cuiabá, que por mais de 250 anos teve acesso difícil a outras regiões do país.
Naquela época, o chiclete importado era um artigo de luxo, que chegava a Mato Grosso com dificuldade e preço alto. "Chiclete era um artigo de luxo. E nessa daí o pessoal falou: 'A gente precisa de chiclete lá do Rio. A gente tem o nosso próprio chiclete cuiabano'", contou Boute. Assim, a fruta local virou sinônimo do produto industrializado.
A rotina das araras-canindés
As araras-canindés são aves muito sociais e costumam se alimentar e se deslocar em grupos grandes. Para Paulo Boute, esse comportamento é comum em diferentes regiões do estado, especialmente em áreas rurais.
Em cidades como Campo Novo do Parecis e Primavera do Leste, é possível encontrar bandos dessas aves em plantações de milho e girassol. Elas também buscam áreas urbanas para passar a noite, principalmente em locais com proteção contra predadores.
"Elas buscam ficar a dormir na cidade, porque ali tem proteção. Não tem animal que vai predá-las durante o sono delas", justificou o guia. Ele mesmo tem pelo menos seis araras dormindo todas as noites em palmeiras próximas à sua casa.
Ainda que encontrar as aves em grupos seja frequente, a aproximação de pessoas e veículos enquanto se alimentam no asfalto não é um comportamento habitual, o que torna a cena registrada em Cuiabá uma curiosidade interessante para a fauna urbana.

Grupo de araras é flagrado comendo 'chiclete cuiabano' em MT (Ajustada por IA)


