A baixa taxa de vacinação contra a gripe e a covid-19 durante a gravidez está colocando em risco milhares de futuras mães e seus bebês no Brasil. Especialistas destacam que a imunização reduz drasticamente as chances de internação e morte, além de passar proteção aos recém-nascidos. Embora a meta seja de 90%, a cobertura ainda é baixa para a covid-19 e insuficiente para a gripe, o que leva a casos graves de doença respiratória. Profissionais de saúde reforçam que as vacinas são seguras, testadas e fundamentais para a saúde da mãe e da criança nos primeiros meses de vida.
Nataly Saldanha, moradora do Rio de Janeiro, é considerada um exemplo de gestante modelo na sua unidade de saúde. Aos 39 semanas de gestação, ela espera o nascimento de sua filha Noely e orgulha-se de ter realizado todas as consultas e exames necessários. Nataly mantém sua carteirinha de vacinação totalmente em dia, seguindo rigorosamente as orientações dos profissionais de saúde.
Para Nataly, a vacinação é um hábito antigo. Ela acredita que estar imunizada é a melhor forma de garantir a saúde de si e de sua bebê. Raissa Silva de Oliveira, analista de marketing, compartilha dessa visão. Aos 34 semanas, esperando por Rafael, ela destaca a importância da ciência e da orientação médica para manter suas vacinas em dia durante a gravidez.
- Dados alarmantes: Em 2025, apenas 55% das gestantes se vacinaram contra a covid-19 e 63% contra a gripe, muito abaixo da meta de 90%.
- Risco de óbito: Entre 2022 e 2026, a gripe causou 25 mortes e a covid-19, 21 mortes entre gestantes e puérperas com casos graves.
- Proteção do bebê: A vacina da mãe passa anticorpos para a criança, que só começa a ser vacinada contra essas doenças aos 6 meses de vida.
- Segurança comprovada: Estudos mostram que a vacinação reduz em até 70% a ocorrência da gripe nos primeiros meses do bebê.
- Outras doenças: A vacina dTpa protege contra a coqueluche, doença que causou 11 óbitos em bebês em 2026, sendo a maioria com menos de 6 meses.
O desafio da hesitação vacinal no Brasil
Infelizmente, nem todas as grávidas têm a mesma consciência de Nataly e Raissa. Os dados do Ministério da Saúde mostram que a cobertura vacinal contra a influenza melhorou em 2026 para 76%, mas ainda é inferior à meta. A vacinação contra a covid-19, por sua vez, estagnou-se em torno de 55%.
Esses números refletem a hesitação em vacinar, que já resultou em consequências trágicas. De 2022 até agosto de 2026, pelo menos 286 gestantes desenvolveram síndrome respiratória aguda grave (SRAG) por causa da gripe, com 25 mortes. A covid-19 provocou 205 casos graves e 21 mortes no mesmo período.
Entendendo as causas da desinformação
Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), aponta que a acomodação com a gripe e a desinformação sobre a covid-19 são as principais barreiras. Muitos ainda acreditam que a vacina da gripe não é importante ou que a da covid-19 foi feita às pressas e é experimental, o que é mentira. Trata-se de uma tecnologia antiga que foi adaptada rapidamente graças à colaboração global.
A ciência comprova a eficácia da medida. Estudos mostram que a vacinação reduziu os casos mensais de SRAG em gestantes para um terço e a mortalidade para um quinto em comparação com o período anterior. Mesmo assim, a gripe e a covid-19 juntas representam quase 30% dos casos graves de SRAG em gestantes este ano, e mais de 50% das mortes.
A necessidade de proteção total no pré-natal
O Ministério da Saúde oferece, além da gripe e covid-19, vacinas contra hepatite B, tétano, difteria, coqueluche e VSR para gestantes no SUS. A ginecologista Giuliane Lajos, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, insiste que essas vacinas devem ser parte do checklist básico, e não um extra.
Grávidas são naturalmente mais vulneráveis a infecções devido às mudanças no sistema imunológico e à diminuição do espaço pulmonar. Sem a proteção das vacinas, o risco de complicações graves, como a internação em UTI, aumenta. Isso pode danificar a placenta e provocar o parto prematuro. Estudos globais confirmam que mulheres vacinadas contra a covid-19 têm menor risco de partos prematuros e anomalias congênitas.
Benefícios diretos para o recém-nascido
A vacinação da mãe também protege o bebê após o nascimento. Como as vacinas contra a gripe e a covid-19 só começam a ser aplicadas na criança aos 6 meses, os recém-nascidos dependem dos anticorpos transferidos pela placenta. Ensaios clínicos indicam que a vacinação materna reduz em 70% a incidência de gripe nos primeiros meses de vida da criança.
A falta de imunização nas crianças pequenas também preocupa. Em 2026, até 19 de setembro, já foram registrados quase 4 mil casos graves de gripe em crianças com menos de 2 anos, com 55 mortes. A covid-19 causou 808 casos graves e 18 mortes nessa faixa etária no mesmo período. A vacina de RNA mensageiro mostrou eficácia de quase 100% contra mortes por covid-19, e a da gripe reduz o risco de morte em até 75%.
Exemplo de sucesso: A vacina contra o VSR
A combinação de vacinação da gestante e da criança é fundamental. Um exemplo de sucesso é a vacina contra o VSR (vírus sincicial respiratório). Iniciada no ano passado, ela já vacinou 1,7 milhão de gestantes (86% do público-alvo). Com isso, os casos graves em bebês de até 6 meses caíram pela metade em 2026, comparado ao ano anterior.
Coqueluche e o papel da vacina dTpa
A história da vacinação no Brasil também mostra o poder da proteção materna para doenças como a coqueluche. A vacina dTpa, oferecida no SUS para grávidas desde 2014, protege contra essa bactéria que causa tosse intensa e dificuldades respiratórias. Como a primeira dose da criança só é dada aos 2 meses, o recém-nascido depende da imunidade da mãe.
A cobertura da dTpa subiu de 34% em 2016 para 94% em 2025. Como resultado, os casos de coqueluche no Brasil caíram de 7.747 em 2024 para apenas 401 até setembro de 2026. No entanto, a doença ainda mata: de 11 óbitos registrados em 2026, nove foram de bebês com menos de um ano.
O papel dos profissionais de saúde
Especialistas como Giuliane Lajos e Flávia Bravo reforçam que todas as vacinas para gestantes são seguras e não causam malformações, autismo ou mortes. A vacina da covid-19 é uma das mais estudadas do mundo. A diretora da SBIm cobra que os médicos deixem de espalhar mitos e utilizem dados científicos para orientar os pacientes.
Na prática, profissionais como a médica Catarina Jatobá integram a vacinação ao pré-natal. Ela confere o cartão na primeira consulta e encaminha a gestante para a sala de vacina no mesmo dia, evitando perdas. Agentes comunitários de saúde também fazem visitas mensais para lembrar as gestantes sobre as doses. Essa abordagem integrada, incluindo grupos de gestantes, tem ajudado a combater a resistência e a garantir a saúde das futuras mães e de seus bebês.

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