Pesquisadores espanhóis revelaram que a obesidade ativa um mecanismo no corpo que impede o coração de relaxar corretamente, aumentando o risco de insuficiência cardíaca. O estudo sugere que novos tratamentos específicos para esse tipo de problema podem estar perto de surgirem, beneficiando os cerca de 23 milhões de pessoas afetadas no mundo.
Um estudo realizado pelo Centro Nacional de Pesquisa Cardiovascular Carlos III, na Espanha, confirmou que a obesidade afeta diretamente a capacidade do coração de relaxar. Essa descoberta é fundamental porque mostra que a ativação de um receptor específico, ligado aos hormônios do estresse, é a causa inicial do problema cardíaco em pessoas obesas. Os resultados da pesquisa foram publicados na renomada revista científica Cardiovascular Research.
A condição estudada, conhecida como insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada, já representa mais da metade dos casos de problemas cardíacos no mundo. Estima-se que cerca de 23 milhões de pessoas sofram com essa doença. Nesse caso, o coração consegue bombear o sangue com força, mas falha na parte de relaxar para receber novo sangue, o que sobrecarrega o órgão.
- O problema afeta 23 milhões de pessoas no mundo e é causado por dificuldades no relaxamento do coração.
- Obesidade, pressão alta, excesso de açúcar no sangue e apneia do sono são os principais gatilhos.
- A equipe analisou 50 mil núcleos celulares de ratos para entender as mudanças genéticas.
- A obesidade ativa um mecanismo específico de estresse que danifica o coração de forma única.
- O tratamento varia para cada paciente, exigindo abordagens personalizadas de medicina.
Os pesquisadores explicam que a dificuldade de relaxamento está ligada a quatro problemas comuns que aparecem juntos na maioria dos pacientes: obesidade, hipertensão arterial, hiperglicemia (excesso de açúcar no sangue) e apneia do sono. Como essas condições costumam acontecer ao mesmo tempo, era difícil saber qual delas causava quais danos específicos e por que os tratamentos atuais não funcionavam para todo mundo.
Metodologia do estudo
Para desvendar esse mistério, o estudo, liderado por Enrique Lara-Pezzi, analisou separadamente os efeitos de cada um desses quatro fatores sobre o coração. A equipe usou modelos de ratos que imitavam a evolução da doença com o envelhecimento natural. Além disso, foram examinados tecidos cardíacos nos primeiros estágios da alteração no relaxamento, antes que a insuficiência cardíaca se manifestasse completamente.
Os cientistas utilizaram uma tecnologia avançada chamada sequenciamento de RNA de núcleo único. Esse método permite identificar quais genes estão ativos em diferentes tipos de células. Com isso, a equipe analisou aproximadamente 50 mil núcleos celulares do ventrículo esquerdo, a câmara principal que bombeia o sangue para o corpo.
Descobertas sobre a obesidade
Antonella Ausiello, primeira autora do estudo, explicou que a obesidade e o excesso de açúcar no sangue causaram as mudanças moleculares mais intensas e abrangentes no coração, afetando vários tipos de células. Por outro lado, a pressão alta e a apneia do sono, simulada no laboratório por falta de oxigênio intermitente, provocaram alterações mais moderadas. Apesar de alguns efeitos serem semelhantes, obesidade e hiperglicemia não atacam o coração da mesma forma.
Nos casos de obesidade, os pesquisadores identificaram a ativação do receptor de glicocorticoides como o principal vilão. Esse receptor, normalmente ligado aos hormônios do estresse, foi o mecanismo responsável pelos danos cardíacos observados nos animais obesos. Para os autores, isso abre uma grande porta para a medicina, indicando que esse receptor pode ser um alvo terapêutico específico para tratar essa disfunção.
Importância da medicina personalizada
A descoberta de mecanismos diferentes para cada problema é crucial. Nos modelos de hiperglicemia, por exemplo, bloquear a mesma via que causou dano na obesidade não foi suficiente para recuperar a função do coração. Isso prova que não existe uma pílula única para tratar todos os pacientes de insuficiência cardíaca. Cada comorbidade provoca danos por caminhos moleculares distintos. Por isso, os autores reforçam a necessidade de estratégias de medicina personalizada, que atendam ao mecanismo principal de cada pessoa. Eles alertam, no entanto, que os dados ainda precisam ser confirmados em humanos antes de virarem tratamentos reais.

Lusa


